Fazendo escolhas

Lazer

Do RPG à terapia para jovens adultos – Parte 3/ 3

Ainda sobre o trabalho de mestrado, comentado no post anterior Do RPG à terapia para jovens adultos – Parte 2/ 3, segundo Campbell (2007), “ao imergirmos em um mundo desconhecido, novas possibilidades se abrem e, ao penetrá-las, potencializa-se a ampliação de consciência.”

Afirmando que dessa forma “abre-se a possibilidade de transformação interior que nos levará não a deixarmos de ser o que fomos, mas, também, não sermos mais o que éramos, sermos um novo tempo de consciência, em que nos tornamos mais próximos daquilo que, verdadeiramente, somos.”

E a autora afirma que quanto ao “rumar ao desconhecido” surge “grande número de verbalizações relacionadas a um movimento de catarse no jogo de RPG, através das quais os sujeitos relatam descarregar todo o stress de suas vidas durante essa atividade.”

A catarse segundo a psicanálise seria quando é preciso que o herói trágico passe da “felicidade” para a “infelicidade” para que o espectador possa atingir a catarse. Por exemplo: a tragédia Romeu e Julieta, de Shakespeare, na qual os dois protagonistas fazem parte da elite da cidade e são mortos pelo seu amor proibido (Wikipédia).

Cerqueira et al (2005) afirma que “a conscientização de si mesmo é representada pela categoria apreensão de novos conteúdos.” E a autora afirma que “todos os sujeitos relataram que, através do RPG, é possível identificar características, até então, não concebidas como pertencentes a si.”

E ainda segundo a autora esses conteúdos “dizem respeito ao mundo exterior/outro como ampliação do círculo social, aumento da auto-estima e autoconfiança, preparação para o mundo através do exercício de papéis; a conhecimentos e habilidades através de, por exemplo, aumento da cultura, potencialização da criatividade, raciocínio e imaginação, desenvolvimento intelectual, crescimento pessoal, ampliação do conhecimento em certas áreas, aumento da noção de responsabilidades, melhora da argumentação; e em relação a si mesmo ao mencionarem o RPG. como facilitador de maior conhecimento do que se é com suas fraquezas e forças, vantagens e desvantagens, capacidades e limitações.”

A autora finaliza dizendo que o “RPG parece apresentar um aspecto terapêutico, ao promover o processo de individuação, à medida que oferece um campo potencial para o desenvolvimento psíquico dos jogadores. Os sujeitos de pesquisa sinalizam ter ampliado suas potencialidades heroicas de modo a incorporá-las a si mesmos, a partir do reconhecimento de suas projeções, incorporação de aspectos, até então, não concebidos como deles próprios. Com isso, podem se instrumentalizar para vencerem as batalhas de suas próprias vidas.”

Através dessa conclusão, a pesquisadora vê o RPG como uma possível via para averiguar em qual etapa da jornada heroica (post futuro) determinado indivíduo se encontra, o que indica a possibilidade de uma futura pesquisa a respeito do RPG como um instrumento de psicodiagnóstico.

E quanto ao que eu penso sobre o assunto? Continuo com a minha sessão de terapia todos os domingos (risos). E agora com um novo grupo <3.

Escolha ser livre.

Lazer

Do RPG à terapia para jovens adultos – Parte 2/ 3

Bom, como já contei no post anterior, eu já faço terapia, ou melhor, jogo RPG tem um pouco mais de uma década. E de lá pra cá só tenho boas lembranças desses dias em que passava horas e horas jogando com meus amigos (geralmente domingo o dia inteiro).

Os anos foram se passando e eu não tinha noção do poder que o RPG tinha/ tem como terapia.

Eu já tinha uma percepção que o jogo despertava/ desenvolvia certas habilidades como trabalho em equipe, oratória, interpretação, imaginação, empatia, raciocínio lógico e etc., mas não tinha uma clareza do assunto até ouvir um podcast que falava sobre o RPG como terapia.

Era na verdade um podcast que discutiu o trabalho de mestrado em psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/ SP da aluna Paula P. V. Guimarães com o título Sagas de rpgistas: um estudo junguiano acerca do encontro com o herói via Role Playing Games .

Eu diria que é um trabalho extenso, inovador e bem interessante, onde a pesquisadora mistura pessoas (jogadores) de gêneros, classes sociais, níveis de instrução (escolaridade) idades e avalia seus desenvolvimentos no decorrer de várias partidas (seções de jogos).

Ao final de cada partida são feitas perguntas a cada jogador individualmente, coletado informações para análises.

Como citado no trabalho de mestrado “segundo Hisada (1995), as histórias vêm sendo usadas há muito tempo para resolver questões de pacientes. Com o objetivo de que busquem a si mesmos, através da integração de suas personalidades, podemos lhes oferecer um conto, personificando seu problema. Através desse método, portanto, cria-se a possibilidade de elaboração de seus conflitos.”

“De acordo com Raynsford (1995), os mitos e contos de fada são descrições simbólicas de nossa história interna, de nosso processo de individuação, o que permitiu a Hisada (1995) utilizá-los como instrumento terapêutico. Hisada (1995) ofereceu, aos pacientes, estórias escolhidas de acordo com seus conflitos e momentos de vida, o que lhes permitiu identificar e reconhecer aspectos pessoais, na estória, como pertencentes a suas próprias realidades psíquicas”

“Como resultado, houve a integração de tais conteúdos e a maior percepção dos pacientes em relação a si mesmos. Tal instrumento, segundo a autora, viabilizou o encontro com camadas inconscientes, além de permitir, aos pacientes, relacionar as estórias narradas com outras áreas de suas vidas, para além da queixa inicial trazida à terapia, de modo a trabalhá-las.”

A autora relata ainda que o RPG traz a possibilidade de vivência de diversos tipos de personagens, mas que as pessoas da sua pesquisa escolheram sempre a figura do herói para representar nas aventuras de RPG.

O herói criado, como mencionado pela autora, não se trata de um personagem distante do jogador que o origina, na verdade, é alguém próximo a ele, abrindo-se a possibilidade de projetarem conteúdos e, então, os reconhecerem e conceberem como parte deles próprios a fim de os incorporarem.

Desse modo, o herói do universo de fantasia pode migrar para a vida real, com as devidas adaptações aos meios interior e exterior, tornando-se uma potencialidade do sujeito.

Ela afirma ainda que Regidos pela dinâmica do herói, nos preparamos para enfrentar as demandas do mundo exterior, através do desenvolvimento de nosso universo interior, por meio do fortalecimento do ego e aquisição de novos conteúdos e conhecimentos, tanto referentes ao meio exterior, quanto ao meio interior.

Desse modo, nos munimos de mais elementos que, por sua vez, nos permitem alcançar conquistas e vencer desafios, assim como adequar-nos ao meio social em que estamos imersos.

Escolha ser livre.”

Lazer

Do RPG à terapia para jovens adultos – Parte 1/ 3

Não, não vou falar aqui sobre a Reeducação Postural Global – RPG mas sim de outro RPG. O role-playing game, um gênero de jogo no qual os jogadores assumem o papel de personagens imaginários, em um mundo fictício.

Em qualquer estilo de RPG, as histórias são guiadas por um jogador denominado “mestre”, que dita a história, descreve os cenários, controla os inimigos que outros jogadores enfrentam, etc. Enquanto isso, os outros jogadores tomam suas decisões de forma livre conforme as situações narradas pelo mestre.

As principais características do RPG são a interatividade e o trabalho em grupo. Se trata de um jogo predominantemente colaborativo, no qual os jogadores só conseguirão vencer se trabalharem de uma forma ou de outra em conjunto.

Acredito que deve ter uns doze anos que conheci/ jogo RPG, mas não foram doze anos seguidos.

Lembro que meu primeiro contato com o RPG foi no ensino médio, foi um jogo bem “zoeira” onde tínhamos cinco jogadores, sendo um mestre, e parecia que o único objetivo era matarmos um do nosso colega (pense numa pessoa “mala”! risos).

O jogo não durou muito tempo, mas nos divertimos muito, e faz tanto tempo que nem lembro o desfecho do jogo. Lembro que jogávamos geralmente no intervalo das aulas ou ao término das mesmas.

Logo em seguida, ainda no ensino médio, joguei em outro grupo (com pessoas totalmente diferentes) no qual fiz uma amizade maravilhosa que guardo no peito e que ainda mantemos contato até hoje”via internet”, pois me mudei de cidade.

Em seguida, já no início da universidade, eu fui pra outro grupo (alguns ali eu já conhecia) que estava precisando muito de um clérigo (resumindo é basicamente um “mago curandeiro”, seus poderes são divinos, o que lhes permite curar e ressuscitar os outros dependendo do nível) e foi onde eu passei mais tempo jogando.

Acredito que jogamos durante uns cinco anos. E foi quando novamente fiz mais amizades. Também mantemos contato até hoje, não com a frequência que gostaria mas tudo bem, a vida é assim mesmo, e o que conta são os bons momentos que passávamos juntos.

Acredito que aprendi muito nesses períodos em vários aspectos da minha vida. Pois ao você se misturar com o “diferente” te faz ter uma outra visão de mundo, outra visão de vida. Lógico que isso pode ser bom ou ruim, depende de como você faz uso dessas trocas de experiências.

O RPG já estava me servindo de terapia e eu mal tinha noção disso. Não parava para pensar sobre o assunto. Mas eu sabia que ele de uma certa forma me fazia muito bem.

Escolha ser livre.”